sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Multilateralismo da Rússia converge no Brics



12 novembro 2013, http://gazetarussa.com.br (Brasil, Бразилия)

Giovanni Lorenzon, especial para Gazeta Russa

Professor de relações internacionais prevê o fortalecimento das relações Brasil-Rússia, tanto bilateralmente como no âmbito dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), e não concorda em julgar a democracia russa apenas pela ótica ocidental.

Próxima cúpula com líderes dos Brics acontecerá no Brasil em 2014 Foto: RIA Nóvosti

Único brasileiro participante da reunião do Clube Valdai 2013, iniciativa que reuniu intelectuais, políticos e autoridades em setembro para discutir questões relacionadas à Rússia, o cientista político Fabiano Mielniczuk prevê o avanço das relações bilaterais entre Brasil-Rússia.

“Multilateralismo é a política que baliza a cooperação com a Rússia, inclusive no âmbito das iniciativas individuais do próprio país”, observa
Mielniczuk, ex-coordenador do Brics Policy Center, instituto ligado à PUC-Rio, onde é professor licenciado.

Há pouco tempo, Mielniczuk fundou em Porto Alegre o Audiplo, escola de estudos voltada para a reflexão sobre os problemas mundiais e de formação preparatória à carreira diplomática.

Em entrevista à Gazeta Russa, o cientista político falou sobre a evolução das relações bilaterais e particularidades do contexto social na Rússia.

Gazeta Russa: A venda de armas para o Brasil é sinônimo de avanço nas relações bilaterais?
Fabiano Mielniczuk: Por sua própria natureza, esse tipo de negócio é firmado com parceiros ou, preferencialmente, com países que não venham a representar ameaças aos vendedores no futuro. As relações do Brasil com a Rússia são relações de parceria, iniciadas em meados dos anos 1990 e intensificadas nos anos 2000. A venda de armas para o Brasil significa, sim, o fortalecimento desses laços, principalmente se a venda de armas implicar em transferência de tecnologia, independente de o produto ser a segunda maior fonte de receita depois dos hidrocarbonetos.

GR: Como o sr. analisa a evolução da parceria entre os países?
FM: O comércio entre os dois países era quase nulo depois do fim da URSS. Atualmente, já movimenta em torno de US$ 6 bilhões e existe a expectativa de que ele alcance os US$ 10 bilhões nos próximos anos. Aos poucos, Brasil e Rússia têm diversificado suas pautas de exportação.

No âmbito da Comissão de Alto Nível entre os dois países, várias subcomissões setoriais discutem temas que variam de assuntos econômicos e militares a questões culturais. Para mostrar a importância da cooperação, vale lembrar que um dos assuntos discutidos entre os dois países envolve a colaboração científica para aprimorar o processo de enriquecimento de urânio.

GR: Mas há analistas dizendo que ambos os países ainda não se “descobriram”  para valer...
FM: Tanto o Brasil quanto a Rússia enfrentaram problemas gravíssimos durante os anos 1990. A relação entre os países iniciou para valer a partir dos anos 2000. É ainda bastante recente.

GR: Qual é o papel dos Brics no fortalecimento dessas relações?
FM: Nesse agrupamento, há o alinhamento discursivo entre China e Rússia, que defendem a multipolaridade, enquanto que o Brasil, África do Sul e Índia se baseiam mais em agendas desenvolvimentistas. Esses dois discursos são complementares e mantêm os países com interesses alinhados, apesar das diferenças. Os interesses bilaterais são inclusive fortalecidos no âmbito dos Brics.

GR: O sr. concorda com a opinião de que a China assumiu a liderança do grupo, enquanto Rússia e Brasil disputam uma posição secundária?
FM: A Rússia e o Brasil foram os dois países responsáveis por transformar o Brics em um agrupamento político. Dificilmente terão um papel secundário. O fato de a China ser a segunda maior economia do mundo afeta a todos os países – tanto os EUA, quanto a Rússia ou os países europeus. Por isso, acho que o debate sobre um certo domínio da China sobre as iniciativas das quais participa não é relevante.

GR: O governo russo está tentando criar uma imagem mais favorável no exterior, a exemplo do artigo de Pútin no “ The New York Times”, mas o Ocidente ainda coloca em dúvida os valores democráticos do país. Qual sua opinião sobre tais iniciativas?
FM: A Rússia está buscando uma forma de atender aos anseios de sua população e redefinir sua identidade após o desastre da década de 1990, e depois de séculos de autoritarismo. Isso não ocorre em pouco tempo e qualquer julgamento sobre democracia na Rússia, a partir dos padrões ocidentais, é precipitado.

GR: Os desastres da política externa dos EUA, como os casos de espionagem e sua atuação no conflito da Síria, podem ajudar a Rússia e outros países a capitalizarem dividendos políticos?
FM: Acho que Rússia, assim como o Brasil, acredita-se que um mundo multipolar é mais justo que um mundo unipolar. Nesse sentido, os interesses estratégicos dos dois estão em conformidade com os de vários outros países que pretendem reestruturar o sistema de governança internacional.

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