quarta-feira, 23 de maio de 2007

Mea culpa: Papa admite genocídio indígena na América Latina

O Papa Bento XVI admitiu nesta quarta-feira (23) que períodos "sombrios" acompanharam a evangelização na América Latina, dez dias depois de ter afirmado no Brasil que esta mesma evangelização não havia sido imposta aos índios.

Como já havia feito depois de Auschwitz (Polônia) e Regensburg (Alemanha), o chefe da Igreja católica tentou suavizar a controvérsia provocada pelo discurso pronunciado no dia 13 de maio passado em Aparecida diante dos bispos da América Latina. Bento XVI também já havia sido infeliz ao qualificar o islamismo como uma religião violenta, entre outros insultos.


A recordação do "passado glorioso" da Igreja católica na América Latina "não pode ignorar o período sombrio que acompanhou o trabalho de evangelização do continente", declarou o Papa alemão nesta quarta-feira.


"Não se pode esquecer o sofrimento e as injustiças infligidas pelos colonizadores às populações indígenas, cujos direitos humanos fundamentais foram muitas vezes desrespeitados", acrescentou.


Em Aparecida, Bento XVI havia afirmado que "o anúncio de Jesus e de seu Evangelho não significou em nenhum momento a alienação das culturas pré-colombianas, e não impôs uma cultura estrangeira", ignorando dessa forma os massacres e as sevícias que acompanharam esta evangelização.


Representantes das comunidades indígenas latino-americanas e dirigentes religiosos expressaram logo em seguida seu desacordo com esta versão peculiar da História.


"A evangelização foi uma imposição ambígua, violenta, um choque de culturas que prejudicou totalmente os índios", lembrou a teóloga católica Cecilia Domevi.


O presidente da Venezuela,
Hugo Chávez, havia pedido ao Papa que apresentasse desculpas aos índios da América Latina por ter negado "o holocausto indígena".


Crimes injustificados


Nesta quarta-feira, Bento XVI destacou que estes "crimes injustificados" haviam sido "condenados em seu tempo por missionários como Bartolomeu de Las Casas e teólogos como Francesco da Vitória", e que eles não deviam ocultar "a obra maravilhosa construída pela graça divina nestas populações ao longo dos séculos".


Em 13 de outubro de 1992, em Santo Domingo, o Papa João Paulo II, predecessor de Bento XVI, pediu aos descendentes das populações indígenas latino-americanas que perdoassem os conquistadores espanhóis. Ele qualificou então sua viagem de "ato de expiação por tudo que foi marcado pelo pecado, pela injustiça e pela violência" na época da evangelização da América.


Ao contrário de João Paulo II, Bento XVI "é insensível ao efeito que suas palavras podem ter nas pessoas que não pertencem a sua esfera intelectual e cultural", notou o vaticanista americano do jornal National Catholic Reporter John Allen.


Em setembro de 2006, em Regensburg, o discurso do Papa sobre a relação entre fé e razão havia provocado uma onda de indignação no mundo muçulmano, por ter estabelecido implicitamente uma ligação entre o Islã e a violência. Bento XVI negou em seguida que sua intenção tivesse sido estabelecer esta ligação e corrigiu o discurso, mas não pediu desculpas.


Em maio do mesmo ano, durante sua visita ao campo de exterminação de Auschwitz, Bento XVI, havia acrescentado na última hora, segundo a orientação de seus conselheiros, a palavra "Shoah" a seu discurso, mencionando as seis milhões de vítimas polonesas sem especificar que metade delas eram judias.
Ele havia corrigido suas declarações em seguida, evocando os "cerca de seis milhões de judeus" exterminados nos diversos campos nazistas. (Fonte: France Presse/ Vermelho / 23 de maio de 2007)

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